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Tarifaço de Trump e a História Secreta da Intervenção dos EUA no Brasil em 1964

Do “Tarifaço” de Trump à Operação Brother Sam: Uma História de Intervenções dos EUA no Brasil

O tarifaço imposto pelo governo Donald Trump contra o Brasil não é um episódio isolado na história das relações entre os dois países. Ao longo das décadas, os Estados Unidos já intervieram de diferentes formas — direta ou indiretamente — nos rumos políticos e econômicos brasileiros.

Se atualmente Trump justifica a sobretaxa como retaliação ao que chama de “caça às bruxas” do Judiciário contra o ex-presidente Jair Bolsonaro — réu no Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado —, em 1964 o contexto foi ainda mais grave: autoridades norte-americanas chegaram a preparar uma operação militar para intervir no Brasil, em meio a um cenário político polarizado que culminou no golpe e na instauração da ditadura.

Operação Brother Sam: Quando os EUA Quase Invadiram o Brasil

No dia 31 de março de 1964, poucas horas antes do golpe militar, a cúpula das Forças Armadas dos EUA aprovou um plano de apoio logístico aos conspiradores brasileiros contrários ao governo de João Goulart.
O historiador Carlos Fico (UFRJ) descreve em seu livro O Grande Irmão que a Operação Brother Sam envolveu:

  • Um porta-aviões e um porta-helicópteros.

  • Seis contratorpedeiros, dois deles com mísseis teleguiados.

  • Cerca de 100 toneladas de armas, incluindo gás lacrimogêneo CS Agent.

  • Quatro navios-petroleiros para garantir abastecimento em caso de boicote.

A frota partiria da Virgínia (EUA) no dia 1º de abril, com previsão de chegada ao porto de Santos entre 10 e 14 de abril. Mas o deslocamento foi cancelado quando o general Humberto Castelo Branco, já vitorioso, avisou que não precisaria de ajuda.

O Contexto da Guerra Fria

O objetivo declarado era garantir o sucesso do golpe e evitar uma suposta aproximação do Brasil ao bloco comunista liderado pela União Soviética.
Documentos posteriores, revelados pela historiadora Phyllis R. Parker, mostram que o plano vinha sendo discutido desde o governo John F. Kennedy e envolvia o embaixador Lincoln Gordon, que acreditava que Goulart implantaria uma “ditadura de tipo peronista” e depois seria dominado por comunistas.

As comunicações secretas indicavam que, embora um golpe de direita não devesse ser incentivado formalmente, a embaixada manteria contato clandestino com os conspiradores para influenciar os rumos da política brasileira.

Logística e Apoio Oculto

A Brother Sam não previa intervenção terrestre direta, mas incluía apoio logístico e político, com militares e civis atuando de forma encoberta, auxiliados por órgãos como o Departamento de Estado e a CIA.
O plano incluía até o descarregamento de armas por um submarino não identificado na costa de São Paulo, perto de Iguape ou Cananeia, para evitar acusações de intervencionismo.

Segundo o historiador Vitor Soares, “os conspiradores brasileiros deram conta sozinhos, mas o imperialismo estadunidense estava presente, operando”.

Quem Pagaria a Conta

Quando a operação começou a ser desmontada, a preocupação dos EUA mudou: o custo, estimado em US$ 2,3 milhões. O secretário de Estado Dean Rusk chegou a cogitar pedir reembolso ao governo brasileiro — algo que, segundo Fico, o Brasil escapou de pagar “por pouco”.

Paralelo com o “Tarifaço”

Especialistas veem semelhanças entre a Brother Sam e o atual tarifaço de Trump.
A professora Mayra Goulart (UFRJ) destaca que ambos os episódios refletem a postura dos EUA como potência hemisférica, influenciando países de sua “área de interesse”.
Já o cientista político Márcio Coimbra observa que, embora o objetivo estratégico seja o mesmo, a forma de atuação mudou: no lugar de operações militares clandestinas, hoje os EUA usam ferramentas econômicas e diplomáticas.

A historiadora Bruna Gomes dos Reis lembra que, em 1964, assim como agora, havia grupos internos no Brasil que acionavam diretamente os EUA — no presente, menciona a atuação de bolsonaristas, incluindo o deputado Eduardo Bolsonaro.

O Fio Condutor: Controle Estratégico

Para o cientista político Enrique Natalino, ambas as ações revelam o receio dos EUA de perder influência no Brasil.
Apesar das mudanças nos métodos, o objetivo de manter controle estratégico sobre o país permanece um elemento recorrente na história das relações bilaterais.

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